Disfunção miccional e evacuatória na infância

No nosso stories de domingo postamos uma foto da apostila do Curso Fisioterapia em Uropediatria que nossa fisioterapeuta Priscila Demeterco estava participando, em São Paulo. Rapidamente recebemos várias perguntas de pessoas querendo saber mais sobre o tratamento de Fisioterapia Pélvica para crianças. Pensando nisso, na segunda colocamos algumas perguntas para que pudéssemos elaborar um post e esclarecer possíveis dúvidas sobre o assunto. Vamos a leitura. Se ao final as dúvidas persistirem não hesite em enviar uma mensagem no nosso instagram ou e-mail: fisio.pelve@gmail.com

A disfunção miccional ou evacuatória em crianças consideradas neurologicamente normais pode acontecer em qualquer idade, o mais comum é após o período do desfralde, podendo se postergar até a adolescência. A aquisição da continência urinária durante o dia ocorre na maioria das crianças até os 4 anos de idade e a noturna até os 5 anos de idade. Após esta idade, qualquer queixa deve ser investigada.

Os distúrbios mais comuns são a enurese, a infecção urinária de repetição, a bexiga hiperativa e a constipação intestinal.
A enurese é a perda involuntária de urina durante o sono, o famoso xixi na cama. A maioria das crianças adquire o controle da micção até os cinco anos de idade. No caso disso não acontecer a enurese passa a ser um problema na socialização da criança também. Nesse contexto, além das disfunções fisiológicas, a criança pode desenvolver medo, vergonha e sentimentos que acabam afetando ainda mais o quadro. Quando a criança fizer xixi na cama, antes de puni-la, observe, analise a freqüência com que isso acontece, dê apoio. O ambiente familiar deve ser o suporte emocional para esta criança adquirir sucesso no seu tratamento. Punir nunca é uma boa solução.

Durante a noite temos uma alta produção de urina, pois nos falta o hormônio anti-diurético cuja responsabilidade é equilibrar e regular a quantidade de urina e associado a isso, existe a dificuldade da criança de acordar durante a noite quando a bexiga está cheia. Esses dois fatores combinados acabam fazendo com que a criança faça xixi na cama. Quando associado a hiperatividade da bexiga (desejo urgente de urinar) é comum a criança apresentar a perda de urina também durante o dia. Cabe ressaltar que filhos de pais que perdiam urina tem maior probabilidade de sofrerem de enurese.

A infecção urinária se torna muito comum pelo fato de a criança beber pouca água, sentar errado para urinar (não favorecendo o relaxamento muscular) e o principal: postergar a ida ao banheiro, pois algumas crianças preferem brincar do que ir urinar.
O quadro de bexiga hiperativa acontece quando a criança vai ao banheiro muitas vezes ao dia. Normalmente ela precisa interromper tarefas para urinar, com intervalos curtos entre as micções e muitas vezes com pouca urina. Pode acontecer também de não conseguir segurar o xixi e molhar a calcinha ou a cueca antes de chegar ao banheiro. Isso acontece porque a bexiga se contrai de forma desordenada, despertando a vontade de urinar mesmo que tenha pouco volume de xixi.
A incontinência fecal e ou constipação são muito comuns nas crianças que não tem hábitos comportamentais e dietéticos saudáveis. Uma característica comum da constipação é a criança voluntariamente reter as fezes e isso modifica o ato defecatório normal. O acumulo das fezes pode gerar alteração da motilidade de todo o sistema gastrointestinal. Isso faz com que o trânsito no trato intestinal se torne lento e as fezes fiquem ressecadas. A persistência deste comportamento, muda a função muscular do assoalho pélvico levando a uma incoordenação, com contração muscular ao invés do relaxamento no momento de defecar. No caso da constipação, no ato da evacuação com as fezes ressecadas, a criança pode sentir dor ou mesmo ter alguma fissura ou trauma na região anal. Isso faz com que a criança passe a sentir medo de ir ao banheiro, fazendo com que o comportamento se repita e o quadro se agrave.

Uma indicação muito importante é a posição de evacuar e urinar, a criança deve estar sentada e relaxada para que seja um processo completo, o ideal é a compra de redutores de vaso sanitário e apoio para os pés quando ela faz uso de uma privada convencional e sempre verificar se essa criança fez o xixi e o cocô completamente ou se já saiu correndo sem terminar.
Alguns dos recursos da fisioterapia utilizados para tratar essas disfunções sao: o treinamento muscular do assoalho pélvico focado em relaxamento muscular, eletroterapia, alarme noturno e terapia comportamental (uroterapia). O tratamento se dá de forma lúdica e adaptada para cada caso. As sessões são individuais, tem duração de 45-50 minutos e ocorrem com frequência semanal dependendo do caso. Nenhum procedimento é invasivo ou doloroso para a criança. É importante que o fisioterapeuta realize uma avaliação detalhada para definir as melhores técnicas a serem utilizadas. O objetivo da fisioterapia pélvica é melhorar a condição social, restabelecer um padrão miccional próximo da normalidade, prevenir lesão renal, além de resgatar a autoestima da criança.

Vale lembrar que o tratamento necessita da participação e atenção ativa dos pais ou responsáveis para que se tenha sucesso, além disso deve-se realizar uma avaliação com o uropediatra, gastropediatra ou o nefropediatra a depender de cada caso.

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